Autoria e autoridade são idéias que se confundem desde que o homem descobriu-se sujeito da criação artística. Músicos, pintores e escritores modernos sonhavam com a invenção do novo, embora soubessem que a originalidade já fosse impossível no início do século passado. Nos dias de hoje, como conseqüência, o ineditismo torna-se um valor subestimado em meio às infinitas possibilidades de citação, cruzamento, referência e colagem, embora as discussões sobre autoria tenham voltado à pauta, embaladas por reflexões a respeito de propriedade intelectual e de direito de acesso coletivo aos bens culturais da humanidade. Com o lançamento de Posso ser o autor?, a banda Fevereiro da Silva apresenta argumentos bastante relevantes a esse debate.
O CD de estréia do sexteto joinvilense aventura-se na busca pelo novo, pelo singular e confronta-se com a dificuldade de chegar à originalidade, especialmente depois de todo o esforço de síntese na MPB das últimas décadas, trabalho que remonta à Tropicália nos anos 60, encorpa-se no rock de Ben, nas experimentações do Clube da Esquina e reflete-se, finalmente, nas mestiçagens sônicas de mundo livre s/a e Nação Zumbi. O desafio torna-se ainda mais árduo se tivermos a clareza de reconhecer a MPB como um conceito amplo, muito mais relacionado a modos de produção e circulação da música e menos com sua sonoridade: é música não-erudita e não-regionalista, concebida e apreciada dentro de um fluxo não-especializado, aberta às flutuações da indústria cultural e munida da pretensão de conquistar públicos diversos reunindo, portanto, exemplos tão esquizofrênicos quanto o funk carioca e o novo sertanejo, a música eletrônica e o axé, a guitarrada e o rock gaúcho.
Popularmente brasileira até o talo, a Fevereiro da Silva não acomoda sua postura ou sonoridade em nenhum desses extremos, ainda que represente bem uma nova geração de artistas que reconhece essas referências e que, em complemento, procura através da música um conhecimento mais profundo de si, da arte e do tempo em que vive. Em Posso ser o autor?, a banda circula por timbres mais amenos, tempos e ritmos bastante variados, além de dar uma abordagem curiosa e passional a dois temas bem específicos: a música (seu mistério, seu fazer, suas dimensões) e o indivíduo (sua consciência, suas paixões e percepções).
As canções do início e do final do CD quase tornam Posso ser o autor? um álbum conceitual: aqui a música é revirada em busca da autoria (a faixa-título), do efeito marcante (“Silêncio!”), da sua própria natureza (“Sedutora dos meus tímpanos”), suas propriedades (“Voz eufônica”) e possibilidades (“Samba esquema nosso”). O miolo do CD, por outro lado, dá atenção aos desdobramentos do indivíduo, suas formas pessoais de sentir e representar o mundo, suas leituras singulares da vida, dos relacionamentos e dos valores. É nessas canções, em especial, que a Fevereiro da Silva exercita uma de suas qualidades mais marcantes, a capacidade de criação de metáforas: através de letras atravessadas, versos oblíquos e imagens bastante peculiares, as músicas fundem a realidade concreta e cotidiana a uma realidade abstrata, pessoal, lírica, criando um efeito poético surpreendente, às vezes incisivo e contundente, embora aberto às interpretações particulares de cada ouvinte. Fechando os trabalhos, “Caixa-bomba” (uma das composições mais antigas, presente no EP Funil, de 2008), parece sintetizar as duas temáticas e encerrar o disco em tom conciliador.
É um tanto difícil definir o tipo de som ou o estilo da Fevereiro da Silva, até mesmo porque muitas das opções técnicas e estéticas do grupo são feitas em nome da subversão, na contramão das expectativas comuns da música pop. Isso explica, em parte, a virtual inexistência de refrões (há algo levemente parecido com isso em “Silêncio!”, “Combates” e “Voz eufônica”) e solos. Esses elementos recorrentes nos trabalhos de outros artistas aqui são substituídos por um certo senso épico, grandioso, de progressão harmônica não em direção a um clímax, mas a um estado sonoro de cumplicidade com o ouvinte marcado pelo brilho na mudança de andamentos, pela quebra de climas melódicos, pela alternância de timbres e mesmo pelo silêncio.
Ouça, por exemplo, o descompasso do violino de “Cavalo-de-corrida” ou as experimentações na fronteira entre o funk e o rock de “Voz eufônica”, uma das faixas mais lapidadas ao longo das gravações do disco. Outra canção bastante trabalhada em estúdio (e que também remonta aos primórdios da banda, em 2004) é “Eu vi o pé da torre”, aqui arranjada em clima meio circense, meio jazzista, com toques de fim de festa em boteco fuleiro, opção muito justa para uma banda que não se pretende composta por exímios instrumentistas, nem por um virtuoso vocalista – alternativa perfeita na busca daquilo que a banda define como “música não-perecível”.
Nessa dificuldade – quase impossibilidade – para encontrar definições eficientes para o som da banda, o melhor a fazer é se deixar envolver pela multiplicidade de referências que se desprendem de cada canção e buscar na experiência ou na memória as relações mais estreitas da Fevereiro da Silva com aquelas sonoridades que lhe servem de fonte. Melhor ainda é interpretar Posso ser o autor? como uma tentativa muito bem-sucedida, em meio à errância pós-moderna, de expressar-se artisticamente de maneira inédita, de encontrar aquilo que ainda existe de original e de particular a cada vez que um cidadão de talento se ampara na música para dizer aquilo que sente. Quanto a rótulos ou estilos, é preferível não arriscar palpites. Para mim, é muita responsa dizer que é rock, samba ou coisa assim...
Gleber Pieniz
Jornalista
FICHA TÉCNICA
Fevereiro da Silva é:
André Steuernagel (trombone)
Daniel Moura (baixo)
Guto Ginjo (guitarra, vocais, voz em “Sedutora dos meus tímpanos”)
Hélio de Sousa (trompete)
Lucas Machado (bateria, vocais)
Ricardo Borges (voz)
Posso ser o autor? foi gravado entre dezembro de 2009 e junho de 2011
Produzido por Gabriel Vieira e Fevereiro da Silva